segunda-feira, 17 de março de 2008

Escovem os dentes, crianças!

Não. Eu não vou começar uma campanha para que as pessoas, ou você, até agora leitor desta, faça uma melhor limpeza dentária. A brincadeira toda é que, em uma palestra para estudantes de jornalismo no último dia 11 deste mês (março), Fernando Canzian, repórter especial da Folha e ex-correspondente internacional da mesma, ao se lembrar das afirmações de uma amiga, disse que a leitura de jornal pelos soldados dos veículos de imprensa é como escovar os dentes, ou seja, fundamental, caso não tenha a idéia sido explícita.

Independentemente da obrigação dos jornalistas, o sentido amplificado sobre ler jornais seria o hábito de explorar também outros estilos da escrita, como revistas, livros e seus derivados por qualquer um que tenha o mínimo de interesse em atrair para si as melhores chances de se inserir com excelência e propriedade no mundo em que foi posto depois de expelido. Não é novidade que a leitura engrandece os pequenos e alimenta a fome - no sentido figurado, é claro - dos maiores. A busca pelas resoluções de nossas indagações mais absurdas, curiosas e abstratas está - sem mencionar nos benefícios de viagens, palestras, teatro e da própria vivência nessas respostas - nos impressos. Neles são possíveis de encontrar as opiniões, teses e teorias sobre uma variedade incrível de assuntos e de personalidades que foram a fundo - ou o mais fundo que pensavam ser - na abordagem do tema. E, acima de qualquer outra, a pergunta é: por que os brasileiros lêem tão pouco?

É fato que depende do interesse pessoal o ato de se meter as caras em algumas ou várias páginas, mas, proporcionalmente, o que faz as estatísticas apontarem que os brasileiros se dedicam seis vezes menos que os ingleses ou três vezes menos que os americanos na apreciação da arte da escrita?

É sabido há tempos, desde que os povos nomeados como primitivos exerciam a prática dos desenhos como representações de palavras ou situações, que o homem caça a sua história querendo facilitar a comunicação e compreensão para com o seu igual para, finalmente, poder traçar linhas que acarretem em uma conclusão, em uma lei. E por que, mais uma vez, esse "instinto" (que me perdoem os professores de filosofia no uso dessa expressão) não é maior entre os nossos conterrâneos?

A leitura não é uma montanha-russa, mas pode provocar vertigens tão alucinógenas quanto à própria. Também não tem melodia, mas pode embalar os leitores nas mais especiais histórias. Não permite assistir à obra concretizada em frente aos olhos, entretanto libertará os pulsos das correntes e deixará nas mãos, ou melhor dizendo, na imaginação do tal a criação dos perfis das personagens e de suas respectivas caricaturas. Não trará os perfumes do que for descrito, mas desafiará para esta descoberta de sentidos. Muitas vezes iluminará caminhos e em outras escurecerá certezas obrigando a saída das confortáveis sombras para a mais ofuscante realidade.

Entendo, portanto, que motivos são mais do que suficientes para um convencimento das vantagens desses itens de série dos encapados. Porém, ainda não se chegou a nenhuma conclusão.

O preço dos livros. É isso. Ou não?

É verdade que os livros no Brasil superam em muitas vezes a nossa vontade de comprá-los, de le-los ou de, até mesmo, empilhá-los em algum canto da casa por conta de seu preço. Seria então este o vilão da nossa manchada história? Mas... E as bibliotecas?

Numa conversa, uma pessoa chegou a me dizer que muitas cidades interioranas não possuem ou não carregam grande número de obras em suas prateleiras e que o acesso que cabe à zona rural é extremamente restrito, mínimo. Concordo; não me é desconhecido. O número de cidades não privilegiadas por bibliotecas, investimentos no setor de cultura ainda é suficientemente grande para que as pessoas ignorantes sobre este fato não exijam esse seu próprio direito. E outras que vivem em locais de difícil acesso e que só possuem este universo relativamente próximo de si devem gostar ou ter o hábito de anos para se deslocar até a biblioteca, situada, geralmente, no centro urbano.

Entretanto, conheço o ditado popular "quem procura, acha" e penso que encontrar cultura na forma de livros ou de qualquer outro gênero faz parte do interesse do indivíduo em querer decifrar e testemunhar os fatos de onde vive. Basta querer.

E você que permaneceu leitor até aqui: já escovou os dentes hoje?

1 Comment:

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