sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O amigo de tempos em tempos

Fazia tempo que a gente não se via. Uns bons tantos anos. E como se o encontro não pudesse ser mais bem marcado e ensaiado, nos encontramos no ônibus. Eu havia comprado justamente a poltrona em sua frente.

Durante todo o tempo que não tínhamos nos visto, tentávamos marcar de se ver. Coisa para um café. Bater um papo mesmo. Coisa que normalmente nossas mães fazem ao se encontrarem com outras no supermercado. Mas não rolou café. Nos vimos naquele ônibus.
Ele ainda era o mesmo amigo de sempre. Mesmas feições, mesmo sorriso e nenhuma cicatriz à vista pendurada. Mas eu achava graça naquela barba que crescia feliz pelo rosto pouco mais amadurecido.

E como não podia deixar de ser, havia um óculos ali – naquele rosto. Se aquela armação quadrada e grande não existisse no visual talvez não me instigasse tanto olhar para seus olhos. Engraçado. Os olhos não escondem nada. Nunca. Ninguém esconde nada de olhos abertos. E se eles se fecham os poros respondem por eles. De qualquer forma não há o que esconder. Não há porquê. E os olhos dele eram os mesmos. Apesar do novo visual, era a mesma pessoa. Inconfundível.

Hoje, além dos óculos, ele se projeta atrás de uma câmera fotográfica. Usa os olhos para calcular o que não pode ficar fora de cena. Então ele me dizia sobre suas fotos, sobre todos os lugares por onde estava fotografando e sobre os novos projetos – como fotógrafo, como músico e como arquiteto. Também sobre suas infinitas influências artísticas: pessoas que eu nunca ouvi o nome na vida – e que, provavelmente, não irei me interessar – e filmes só encontrados em sessões de cinema diferenciadas, com pessoas curiosas.

Curiosas. Ele me disse que hoje era difícil encontrar pessoas assim. Eu discordei. Numa cidade como São Paulo é o que mais se têm. Mas ai ele me corrigiu. Disse que para isso, para essas pessoas, ele dava o nome de bizarras. E que estava se referindo ao significado de interessado, fuçador, de forma que essa “curiosidade” agregaria bons conhecimentos para quem o é. Ai eu fiz uma cara de “ah!” e concordei. De fato é difícil encontrar pessoas que se interessam por qualquer coisa. E me lembrei que sempre fui muito assim. E estava sendo. Meu interesse nele durante a viagem foi como a de uma criança que abre uma gaveta na casa de estranhos. (Veja que me refiro às crianças inocentes e puramente curiosas. Coisa que me considero até o devido momento). Foi um sentimento de descoberta, de “pra-que-serve-isso?”. Para que a barba? Para que o tênis colorido e desenhado? Para que os aros quadrados? Para que rir pouco? Mas também para que rir tanto? Para que mais um monte de coisas. Várias perguntas que, se respondidas dariam lugar ao dobro delas. E quase metade do tempo precisei me conter nos pensamentos e acompanhar o que ele dizia. Às vezes ele perguntava sobre mim. E eu, perdida na caixa de brinquedos do amigo, olhava para a minha própria caixa tentando mostrar algo dela que ele pudesse se interessar. Não sei o motivo, mas (me) escolhi e mostrei uma boneca de pano. Nada muito concreto, nada muito maravilhoso por fora, mas que por dentro, pôde ele perceber, não era um só recheado de algodão. Havia mais coisa ali. E ele se interessou.

Mas ele, como sempre, sem ter perdido o costume nesses anos, era aquela pessoa que não me perguntava muita coisa. Não acho que por não querer saber, mas por já saber. E não ficava (me) revolvendo.

Sempre teve algo além. Algum ponto de si que era habitado por tão somente ele. Ninguém sabia como chegar lá e nem ia saber. E foi ai que a viagem acabou. Chegamos, enfim, ao destino. O de nos separar outra vez. Para se encontrar daqui a qualquer unidade de tempo. E com ele é sempre bom assim. Cá e lá.

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